Seu-jorge Diario De Um Detento

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13São Paulo, dia 1º de outubro de 1992, 8h da manhã
8Aqui estou, mais um dia
13Sob o olhar sanguinário do vigia
20Você não sabe como é caminhar com a cabeça na mira de
3Uma HK
13Metralhadora aleou de Israel
10Estraçalha ladrão que nem papel
13Na muralha, em pé, mais um cidadão José
10Servindo o Estado, um PM bom
12Passa fome, metido a Charles Bronson
10Ele sabe o que eu desejo
7Sabe o que eu penso
13O dia tá chuvoso. O clima tá tenso
13Vários tentaram fugir, eu também quero
13Mas de um a cem, a minha chance é zero
11Será que Deus ouviu minha oração?
13Será que o juiz aceitou apelação?
11Mando um recado lá pro meu irmão:
15Se tiver usando droga, tá ruim na minha mão
12Ele ainda tá com aquela mina
11Pode crer, moleque é gente fina
16Tirei um dia a menos ou um dia a mais, sei lá...
9Tanto faz, os dias são iguais
14Acendo um cigarro, vejo o dia passar
12Mato o tempo pra ele não me matar
10Homem é homem, mulher é mulher
10Estuprador é diferente, ?
17Toma soco toda hora, ajoelha e beija os pés
10E sangra até morrer na rua 10
12Cada detento uma mãe, uma crença
9Cada crime uma sentença
19Cada sentença um motivo, uma história de lágrima
19Sangue, vidas e glórias, abandono, miséria, ódio
16Sofrimento, desprezo, desilusão, ação do tempo
9Misture bem essa química
9Pronto: eis um novo detento
14Lamentos no corredor, na cela, no pátio
12Ao redor do campo, em todos os cantos
13Mas eu conheço o sistema, meu irmão, hã...
6Aqui não tem santo
10Rátátátá... preciso evitar
12Que um safado faça minha mãe chorar
12Minha palavra de honra me protege
11Pra viver no país das calças bege
6Tic, tac, ainda é 9h40
17O relógio da cadeia anda em câmera lenta
11Ratatatá, mais um metrô vai passar
13Com gente de bem, apressada, católica
12Lendo jornal, satisfeita, hipócrita
13Com raiva por dentro, a caminho do Centro
13Olhando pra cá, curiosos, é lógico
12Não, não é não, não é o zoológico
10Minha vida não tem tanto valor
11Quanto seu celular, seu computador
10Hoje, tá difícil, não saiu o sol
12Hoje não tem visita, não tem futebol
13Alguns companheiros têm a mente mais fraca
14Não suportam o tédio, arruma quiaca
11Graças a Deus e à Virgem Maria
13Faltam só um ano, três meses e uns dias
12Tem uma cela lá em cima fechada
13Desde terça-feira ninguém abre pra nada
11Só o cheiro de morte e Pinho Sol
11Um preso se enforcou com o lençol
9Qual que foi? Quem sabe? Não conta
13Ia tirar mais uns seis de ponta a ponta (...)
11Nada deixa um homem mais doente
10Que o abandono dos parentes
13Aí moleque, me diz: então, cê qué o quê?
11A vaga tá lá esperando você
12Pega todos seus artigos importados
14Seu currículo no crime e limpa o rabo
11A vida bandida é sem futuro
15Sua cara fica branca desse lado do muro
9Já ouviu falar de Lucífer?
10Que veio do Inferno com moral
15Um dia... no Carandiru, não... ele é só mais um
13Comendo rango azedo com pneumonia...
18Aqui tem mano de Osasco, do Jardim D'Abril, Parelheiros
15Mogi, Jardim Brasil, Bela Vista, Jardim Angela
14Heliópolis, Itapevi, Paraisópolis
12Ladrão sangue bom tem moral na quebrada
14Mas pro Estado é só um número, mais nada
10Nove pavilhões, sete mil homens
12Que custam trezentos reais por mês, cada
15Na última visita, o neguinho veio aí
10Trouxe umas frutas, Marlboro, Free...
14Ligou que um pilantra lá da área voltou
12Com Kadett vermelho, placa de Salvador
15Pagando de gatão, ele xinga, ele abusa
15Com uma nove milímetros embaixo da blusa
17Brown: "Aí neguinho, vem cá, e os manos onde é que tá?
13Lembra desse cururu que tentou me matar?"
15Blue: "Aquele puta ganso, pilantra corno manso
15Ficava muito doido e deixava a mina só
15A mina era virgem e ainda era menor
12Agora faz chupeta em troca de pó!"
10Brown: "Esses papos me incomoda
9Se eu tô na rua é foda..."
14Blue: "É, o mundo roda, ele pode vir pra cá."
11Brown: "Não, já, já, meu processo tá aí
10Eu quero mudar, eu quero sair
15Se eu trombo esse fulano, não tem pá, não tem pum
16E eu vou ter que assinar um cento e vinte e um."
11Amanheceu com sol, dois de outubro
12Tudo funcionando, limpeza, jumbo
13De madrugada eu senti um calafrio
12Não era do vento, não era do frio
13Acertos de conta tem quase todo dia
12Ia ter outra logo mais, eu sabia
13Lealdade é o que todo preso tenta
12Conseguir a paz, de forma violenta
13Se um salafrário sacanear alguém
13Leva ponto na cara igual Frankestein
13Fumaça na janela, tem fogo na cela
10Fudeu, foi além, se pã!, tem refém
11Na maioria, se deixou envolver
14Por uns cinco ou seis que não têm nada a perder
15Dois ladrões considerados passaram a discutir
15Mas não imaginavam o que estaria por vir
16Traficantes, homicidas, estelionatários
14Uma maioria de moleque primário
13Era a brecha que o sistema queria
12Avise o IML, chegou o grande dia
12Depende do sim ou não de um só homem
13Que prefere ser neutro pelo telefone
11Ratatatá, caviar e champanhe
13Fleury foi almoçar, que se foda a minha mãe!
14Cachorros assassinos, gás lacrimogêneo...
15Quem mata mais ladrão ganha medalha de prêmio!
13O ser humano é descartável no Brasil
10Como modess usado ou bombril
12Cadeia? Claro que o sistema não quis
11Esconde o que a novela não diz
12Ratatatá! sangue jorra como água
10Do ouvido, da boca e nariz
7O Senhor é meu pastor...
9Perdoe o que seu filho fez
8Morreu de bruços no salmo 23
7Sem padre, sem repórter
7Sem arma, sem socorro
11Vai pegar HIV na boca do cachorro
14Cadáveres no poço, no pátio interno
10Adolf Hitler sorri no inferno!
16O Robocop do governo é frio, não sente pena
12ódio e ri como a hiena
10Rátátátá, Fleury e sua gangue
11Vão nadar numa piscina de sangue
13Mas quem vai acreditar no meu depoimento?
15Dia 3 de outubro, diário de um detento."