Sergio-godinho Cantiga Da Velha Mae E Dos Seus Dois Filhos

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End rhyme Internal rhyme
12Ai o meu pobre filho, que rico que é
12Ai o meu rico filho, que pobre que é
8Nascidos do mesmo ventre
15Um vive de joelhos pró outro passar à frente
16E esta velha mãe para aqui já no sol poente
12Um dia há muito tempo, vi-os partir
12Levando cada um do outro o porvir
10Seguiram pela estrada fora
17Um voltou-se para trás, disse adeus que me vou embora
15Voltaremos trazendo connosco a vitória
13De que vitória falas, disse eu então
11Da que faz um escravo do teu irmão?
9Ou duma outra que rebenta
17Como um rio de fúria no peito feito tormenta
14Quando não há nada a perder no que se tenta?
11Passaram muitos anos sem mais saber
11Nem por onde paravam, nem por se ter
9Criado os dois no mesmo chão
16Eram ainda irmãos, partilhavam ainda o pão
17E o silêncio enchia de morte o meu coração
13Depois vieram novas que o que vivia
14Da miséria do outro, se enriquecia
9Não foi para isto que andei
14Dias que foram longos e noites que não contei
12A lutar p'ra ter a justiça como lei
12Às vezes rogo pragas de os ver assim
12Sinto assim uma faca dentro de mim
10Sei que estou velha e doente
17Mas para ver o mundo girar de um modo diferente
14Ainda sei gritar, e arreganhar o dente
14Estou quase a ir embora, mas deixo aqui
12Duas palavras p'ra um filho que perdi
8Não quero dar-te conselhos
19Mas se é o teu próprio irmão que te faz viver de joelhos
13Doa a quem doer, faz o que tens a fazer