Sergio-godinho 2O Andar Direito

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End rhyme Internal rhyme
12Ele vinte anos, e ela dezoito
13E há cinco dias sem trocarem palavra
14Lembrando as zangas que um só beijo curava
14E esta história começa no instante
14Em que o homem empurra a porta pesada
16E entra no quarto onde a mulher está deitada
10A dormir de um sono ligeiro
7E no quarto, às cegas
17O escuro abraça-o como que a um companheiro
14Que se conhece pelo tocar e pelo cheiro
13E é o ruído que o chão faz que lhe traz
14O gosto ao quarto depois de uma ruptura
16Faz-lhe sentir que entre os dois algo ainda dura
11Dos dias em que um beijo bastava
7E agora, da cama
12Vem uma voz que diz sussurrando: És tu?
13E a luz acende-se sobre um braço nu
13E a mulher pergunta: a que vens agora?
12É que não sei se reparaste na hora
13Deixa dormir quem quer dormir, vai-te embora
10Amanhã tenho de ir trabalhar
13Não fales, que o bebé ainda acorda
14Não grites, que o vizinho ainda acorda
15E não me olhes, que o amor ainda acorda
16Deixa-o dormir o nosso amor, um bocadinho mais
13Deixa-o dormir, que viveu dias tão brutais
6E o homem, de pé
15Parece um rapazinho a ver se compreende
14E grita e diz que ele também não se vende
11Que quer a paz mas de outra maneira
14E nem que essa noite fosse a derradeira
14Veio afirmar quer ela queira ou não queira
13Que os dois ainda têm muito a aprender
6Se temos...! Diz ela
12Mas o problema não é só de aprender
11É saber a partir daí que fazer
12E o homem diz: que queres que responda?
14Não estamos no mesmo comprimento de onda...
16Tu a mandares-me esse sorriso à Gioconda
12E eu com ar de filme americano
9Somos tão novos, diz o homem
17E agora é a vez de a mulher se impacientar
12Essa frase já começa a tresandar
13É que não é só uma questão de idade
15O amor não é o bilhete de identidade
12É eu ou tu, seja quem for, ter vontade
8De mudar e deixar mudar
13Não fales, que o bebé ainda acorda
14Não grites, que o vizinho ainda acorda
15E não me olhes, que o amor ainda acorda
16Deixa-o dormir o nosso amor, um bocadinho mais
13Deixa-o dormir, que viveu dias tão brutais
6E assim se ouviu
13Pela noite fora os dois amantes falar
13E o que não vi só tive de imaginar
13É preciso explicar que sou o vizinho
13E à noite vivo neste quarto sozinho
14Corpo cansado e cabeça em desalinho
13E o prédio inteiro nos meus ouvidos
9Veio a manhã e diziam
14Telefona ao teu patrão, diz que hoje não vais
12Que viveste uns dias assim tão brutais
11E que precisas de convalescença
14Sei lá, inventa qualquer coisa, uma doença
13Mete um atestado ou pede licença
13Sem prazo nem vencimento, se preciso for
13(espero que não seja preciso, porque não
12Sei como é que eles vão viver sem os
5Dois salários...)
13Vá fala que o bebé está acordado
14E o vizinho deve estar já acordado
14E o amor, pronto, também está acordado
9Mas tem cuidado, trata-o bem
7Muito bem, de mansinho
15Que ainda agora vai pisar outro caminho