Miguel-araujo A Incrivel Historia De Gabriela De Jesus

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[Verso 1]

13Pobre menina, tão acidentada sina
17Encontrada numa esquina, numa cestinha de palha
13Em Lourizela, nas traseiras da capela
16Como cria de cadela sem santinho que lhe valha
[Verso 2]

15O padre Alfredo velho, cobarde e azedo
16Não é tarde nem é cedo despachou a desditosa
13"Por este meio" foi na volta do correio
16Numa mula sem arreio enviada p'ra Murtosa
[Verso 3]

16A dona Otília que ninguém nem dada queria
16Viu na curiosa cria cura para a solidão
16Deu-lhe uma sopa e de alguns restos de estopa
16Fez-lhe carapins e roupa e uma cama sem colchão
[Verso 4]

14Ao ver aquela tez de cravo e de canela
19Deu-lhe o nome Gabriela (dava a cara com a careta)
15Mas sua beleza em brasa, em chama acesa
18Pegou fogo à redondeza como o bafo do capeta
[Verso 5]

15E a inocente um pobre meio rei de gente
19Muito recatadamente espairecia a sua mágoa
15Com um rádio velho boca de batom vermelho
18A cantar em frente ao espelho as canções da Lena d'Água

[Verso 6]

13Lobos malvados, velhos loucos reformados
16Mexericos, maus olhados das beatas da igreja
15Mal via a hora de arrancar dali p'ra fora
18Sem deixar rasto, ir embora ver o mundo, ver Estarreja
[Verso 7]

15Sem pé de meia teve uma brilhante ideia
15Decidiu pedir boleia e só parar em Paris
12Sem carteira lá foi sem eira nem beira
16E nem sequer viu a fronteira não chegou nem a Sanfins
[Verso 8]

13E em Valpaços com alma em mil pedaços
18Entreteve-se nos braços de um magala de Alcafache
14Pediu boleia a um pelintra de Gouveia
18Que a mandou sair em Seia e nunca mais olhou para trás
[Verso 9]

13Sem armar giga cantou-lhe uma cantiga
15Deixou-a de barriga e arrancou sem dar sinal
12Sem dois tostões deu por ela aos trambolhões
17Junto ao porto de Leixões com uma filha e um ucal
[Verso 10]

13Sacou dinheiro a um velho engenheiro
17E escondeu-se num cargueiro que rumava à capital
18Chegou-se à proa e quase achou que a vida é boa
16Ao ver as luzes de Lisboa lindas como num postal

[Verso 11]

13Entre destratos, desaforos, desacatos
16Varreu escadas, lavou pratos numa tasca do Cacém
13Entregou-se a um tratante de Pedrouços
16Saído dos calabouços que a deixou sem um vintém
[Verso 12]

13No Intendente tropeçou numa vidente
17Que jurou que mais à frente a sorte havia de sorrir
13A cartomante uma velha de turbante
15Intuiu pelo semblante um futuro a reluzir
[Verso 13]

13Na luz da vela viu a luz de Gabriela
16Com direito até a estrela no passeio de Hollywood
13Em poucos dias por misteriosas vias
18Cumpriam-se as profecias mais certeiras que o Talmude
[Verso 14]

14Nessa semana foi p'rá América, fez fama
16Privou com a primeira dama, levou a filha ao Hawaii
15E em Gouveia passa um louco, volta e meia
17Que blasfema e cambaleia e garante que é o pai
[Verso 15]

14E na Murtosa o padre faz menção honrosa
19Festa, missa, pompa e prosa que hoje é feriado local
17Em Lourizela há uma estátua em honra dela
18"Aqui nasceu Gabriela o grande orgulho nacional"

[Verso 16]

13Em Lourizela, bem de frente p'ra capela
15Para sempre Gabriela como quem diz ah pois é
15(E o engenheiro confere o bolso traseiro
17Vê que lhe falta dinheiro e volta para Leça a pé)