[Verso 1]
13Pobre me
nina, tão acidentada sina
17Encontrada
numa esquina, numa cestinha de
palha
13Em Lourizela, nas traseiras
da capela
16Co
mo cria de cadela
sem santinho que lhe
valha
[Verso 2]
15O padre Alfredo velho, cobar
de e azedo
16Não é tarde nem é
cedo despachou a desdi
tosa
13"
Por este meio"
foi na vol
ta do cor
reio
16Numa mula
sem arrei o en
viada
p'ra Murtosa
[Verso 3]
16A dona Otília que ninguém nem da
da queria
16Viu na curiosa cria cura para
a solidão
16Deu-lhe uma so
pa e de al
guns restos de estopa
16Fez-lhe carapins e rou
pa e uma cama sem colchão
[Verso 4]
14Ao ver aquela tez de cravo
e de canela
19Deu-lhe o nome Ga
briela (dava a cara
com a careta)
15Mas sua
beleza em brasa, em
chama acesa
18Pegou
fogo à re
dondeza como o bafo do capeta
[Verso 5]
15E
a inocente um pobre mei
o rei de gente
19Muito
recatadamente espairecia a sua mágoa
15Com um
rádio velho boca de
batom vermelho
18A
cantar em frente ao es
pelho as canções
da Lena d'Água
[Verso 6]
13Lobos mal
vados, velhos lou
cos reformados
16Mexeri
cos, maus olhados das beatas
da igreja
15Mal via a hora de arrancar da
li p'ra fora
18Sem deixar rasto,
ir embora ver o mundo, ver
Estarreja
[Verso 7]
15Sem pé de meia teve
uma brilhante i
deia
15Decidiu pe
dir boleia e só parar em Pa
ris
12Sem carteira lá foi sem
eira nem beira
16E nem sequer viu a fronteira não chegou nem a San
fins
[Verso 8]
13E em Valpaços com alma em mil
pedaços
18Entreteve-se
nos braços de um magala de Alcafache
14Pe
diu boleia a um pelintra de Gou
veia
18Que
a mandou
sair em Sei
a e nunca mais olhou pa
ra trás
[Verso 9]
13Sem armar giga cantou-lhe u
ma cantiga
15Deixou-a de barriga e arrancou
sem dar sinal
12Sem dois tostões deu por ela
aos trambolhões
17Junto ao por
to de Leixões com uma filha
e um ucal
[Verso 10]
13Sacou dinhei
ro a um velho engenheiro
17E escon
deu-se num cargueiro que rumava à ca
pital
18Chegou-
se à proa e qua
se achou que a vida é
boa
16Ao
ver as luzes de Lisboa lindas como num
postal
[Verso 11]
13Entre des
tratos, desaforos, desaca
tos
16Varreu esca
das, lavou pratos
numa tasca do
Cacém
13Entregou-
se a um tratante de
Pedrouços
16Saído dos
calabouços que a
deixou sem um vin
tém
[Verso 12]
13No Intendente tropeçou nu
ma vidente
17Que jurou que
mais à frente a sorte havi
a de sorrir
13A cartomante uma velha
de turbante
15In
tuiu pelo semblante um futuro
a reluzir
[Verso 13]
13Na luz da vela viu a luz de Gabri
ela
16Com direito até a estrela no passeio
de Hollywood
13Em poucos dias por misteriosas vias
18Cumpriam-se as profecias mais certeiras que o Tal
mude
[Verso 14]
14Nessa semana
foi p'rá América, fez
fama
16Privou
com a primei
ra dama, le
vou a filha ao
Hawaii
15E em Gouvei
a passa um louco, volta e mei
a
17Que blasfema
e cambaleia e
garante
que é o pai
[Verso 15]
14E na Mur
tosa o padre faz menção honrosa
19Festa, missa, pompa e prosa que hoje
é feriado
local
17Em
Lourizela
há uma es
tátua em honra
dela
18"Aqui
nasceu Gabriela
o grande orgulho naci
onal"
[Verso 16]
13Em Louri
zela, bem de frente
p'ra capela
15Para
sempre Gabri
ela como quem
diz ah pois é
15(E o en
genheiro confe
re o bolso traseiro
17Vê que lhe
falta dinheiro e volta
para Leça a pé)