[Verso]
9Como dizer o que eu
sinto
15Sem que as palavras sufoquem a voz do ins
tinto?
10Como expressar minha ver
dade
17Pra cada um que me escuta
em cada canto dis
tante
15Se é
cada vez mais gritante a surdez que nos
fez
10E nos
faz cada vez mais mes
quinhos
9Seguindo caminhos dis
tintos
13Estra
nhos lutando por prêmios es
tranhos
13Perdendo a
noção do tamanho
da vida
14Aceitando a
descida pro fundo do
poço
18On
de a placa diz "
Topo do mundo" e já ninguém
duvida
20E chegan
do no fundo do poço da vi
da de merda es
colhida
18U
ma celebri
dade celebra sua meta a
tingida
14Com números altos quе a
fazem pensar mesmo
16Quе a
quele fundo
do poço é o to
po do mundo
13E se
sente um al
pinista no monte Everest
12O melhor dos
melhores, the
best of the best
10No spot mais top da mer
da da vida
14E ao fechar os seus
olhos, num bre
ve momento
16Experimenta um pen
samento suici
da, mas calma
14Como entender
o que aflige
sua alma
15Se as palmas ago
ra enlouquecem o re
cinto?
9O
lhares atentos, se
dentos
12Babando como cães de caça fa
mintos
17E a cele
bridade sem gra
ça disfarça e desfi
la
10Com classe sua nobre carca
ça
13De raro a
nimal prestes a ser ex
tinto
18Que exala um perfume
tão rico que é podre de
rico
14No brilho e na bula da be
la embalagem
10Enquanto termi
na a viagem
15Que a leva até o pal
co do topo do mundo
12Que é o fun
do do poço às a
vessas
16Em seu pensamento suicida, procura a sa
ída
13Entre as mãos que lhe afagam a ca
beça
14E observa a pistola que vai na cin
tura
9Do seu
guarda-costas à
frente
15Um gatilho men
tal traz a bri
sa da infân
cia
16E e
la agora é criança e precisa
brincar
16Procu
rar um esconderijo, esconder-se pra sempre
12Num
canto que ninguém pudesse en
contrar
14E come
çam a gritar no recinto lo
tado
17E ela lembra de quando seu
pai ia ver o fu
tebol
16O barulho, a
bebida, a vitória sua
da
13A derrota sofrida, o calor do
lençol
19O silêncio do quarto e seu pai ressonando em ap
neia
10As mudanças mais bruscas da
vida
19As lembranças mais brutas que achava já estarem esque
cidas
25Enquanto
ela avança no meio da plateia, relembra
a pior despe
dida
14E a dor da
lembrança confunde as i
deias
12As luzes avisam
que é hora do show
13Transmitido ao vivo, não pode
ter falhas
25Milhões de pessoas anseiam
por aquele canto que tanto sentimento es
palha
31Que a cele
bridade celebra uma espé
cie de missa profa
na que ameniza o té
dio
20Produz um veneno anti-monotonia
de luz e alegria
16Mas
não se bene
ficia do próprio remé
dio
21Parece
alergia, mas a
glote não fecha que é pra voz traba
lhar
15Como
saber de verdade se alguém da pla
teia
19Quer
saber de verdade o que aquela criança escon
dida
25No fundo da bela embalagem de celebridade poderia querer nos
contar?
13Ela
tem que cantar, a plateia per
gunta:
17"
Por que ela não canta e pa
rece que pensa em
chorar?
15Mas chorar nem pen
sar, não pagamos pra vê-la chorar
18Nós choramos pra vê-la dan
çar, nós dançamos pra vê-la
pular
9Nós pulamos pra vê-la
brilhar
14Nós brindamos ao vê-la e brindamos à
ela
12E printamos a
tela pra compar
tilhar
14Cadê
ela, cadê ela? Começa,
começa"
16E no
fundo do palco monta
do no topo do mundo
12Que é o fun
do do poço às
avessas
9A
celebridade
tropeça
12Amparada
pelo segurança ela
13Então se levanta e pa
rece que cansa
11Ela
fecha os seus olhos e
canta
13Ela ten
ta, mas a voz não sai da gar
ganta
8A platéia se es
panta
15E não
quer que ela caia, só
quer que ela cante
24Mas ela
tropeça de novo e
começa uma vaia e parece vin
gança
10Como pode chegar lá no
topo
18E decepcionar to
do mundo e fazer essa lam
bança?
12Uma lá
grima desce e ela
sobe
14E se abra
ça nas costas do seu segu
rança
11Ela
fecha os seus olhos e chora
11E
la agora parece cri
ança
24E no escu
ro do choro se
lembra de quando e
la ainda na infân
cia
19Pen
sava que estava no fun
do do poço numa vida sim
ples
10Sem lu
xo, sem palco e sem brilho
16E só então se dá conta da sua ignorân
cia
15O tal fundo do
poço era o topo, a
final
10E ela só descobriu no
final
25Pouco antes de achar
na cintura do guarda a pisto
la e puxar o ga
tilho
22A platei
a calada as gargantas travadas pra ouvir o estam
pido
17A surpresa es
tampada na cara e o alí
vio
25A pisto
la travada, o detalhe pru
dente que muda o desfecho do en
redo
19Uma
bala engasgada no
pente, a plateia em sus
pense
14A pis
tola suspensa no
braço agitado
20O final abor
tado e a celebridade
nasceu nova
mente
11Ela a
gora não sente mais
medo
11Finalmente ignora a co
brança
10Já dispensa o to
po do mundo
17Já não pensa no fundo do poço ou na mor
te precoce
8Como há al
guns segundos
16Ela a
inda respira
e agrade
ce por isso
11Ela para e respi
ra mais fundo
28Ela a
inda respira
e repara que,
apesar de tudo, ela
inspira espe
rança
7A plateia sus pira
8A plateia só
espera
9A plateia em silên
cio
12E ela agora parece
que dança