[Verso 1: Gabriel, o Pensador]
6Tá ficando tar
de
20A
cho que era nisso que eu
pensava enquanto
tentava dor
mir
17Pra
ver se pelo menos dormindo eu a
inda sonhava
9E o sono não queria
vir
21Pra
ver se pelo menos dormindo eu ainda conse
guia respirar
6Tô
ficando sem ar
12Acho que e
ra nisso que eu pensa
va
12Enquanto o meu sonho
tentava chegar
11Tentando desligar
minha cabeça
14Mas em alguma tela esse
filme passava
8Era um
filme de sangue
9Ou seriam
as notícias?
8Era um
filme de gangue
10Ou seria u
ma milícia?
9Era um fil
me de época
7Uma
velha novela
16O terror na fave
la e o hospital saturado
8A crian
ça espancada
8Era um
trans torturado
7Eu fi
quei transtornado
19Eram cenas horríveis transcendendo níveis ja
mais tolerados
21Já mais tole
rados ago
ra por seres hu
manos já mais insensíveis
12Já mais insensí
veis do que os alemães
11Que tra
tavam os judeus como gado
21Marcados com
brasa e no Brasa 80 anos depois o en
redo é igual
16Medo
e maniqueísmo e o ó
dio é normal
15Preconceito
é aceito e a
morte é banal
17Ou você é excomungado
ou você é como os bois
10Isso
aqui sempre foi um curral
13U
ma Bíblia, uma bunda,
uma bola
15Uma pinga e
uma sobra
de feijão com arroz
10O que mais poderíamos
querer?
7U
ma arma pra cada
18U
ma bela piada zombando da
cara de quem vai
morrer?
16Será que a minha amiga de Belo Hori
zonte
9Pulou da jane
la do quinto
13Sentindo essa angústia
que eu sinto?
17Por já não ver nada de be
lo ao buscar um horizon
te
21E enxergar vários mons
tros brindando
com cálices de
vinho tinto
10E a carne mais ca
ra no prato
11A carne barata é
a dos pretos
14Compartilham pran
tos e prints das fo
tos dos corpos
13Mas nos co
mentários o tex
to vem pronto:
25"
Se morreu no mor
ro e é preto e fodido deve
ser bandido, en
tão tudo bem"
13Se a
Kathlen não fosse
mulher e ges
tante
15I
am dizer que ela era
traficante
também
22Se a família
chora, o poder igno
ra e o diabo a
té ri
18A
gora o meu sono tá vindo e eu também
tô sorrindo
15Brincando com
o menino Henry, acabou cho
rare
14No sonho eu compo
nho com Moraes Mo
reira
15Mas nem lá de
cima ele esquece
a vergonha
12Lá vem
o Brasil descendo a ladei
ra
19E os novos
baianos que chegam no céu foram execu
tados
21Por terem tentado furtar
um pedaço de carne num supermer
cado
14Então os se
guranças pegaram em fla
grante
9Primeiro pe
diram di
nheiro
16Mas lo
go mandaram chamar os tra
ficantes do
bairro
18E
mandaram en
tregar os ladrões
de galinha pro co
veiro
16Chegaram no céu: "E a
í, Gabriel, você por
aqui?"
13Fiquei preo
cupado,
será que eu morri?
6Mas é só um
sonho
16Vou
ver se aproveito pra dar
um abraço em
meu pai
6Difícil en
contrar
16Chega gente demais numa fila
que nunca ter
mina
23Vi uns anjos ali
reclamando porque
tinha país recusando va
cina
22Disfarcei minha nacionalidade, eu acho que eu sou patrio
ta
17Mas
no céu quem puser suas ban
deiras acima de
tudo
13Deus dá
cascudo
e chama de idio
ta
10Eu acho que eu
sou humanista
9Mas a humanidade
tá punk
12Eu peço um papel e
uma caneta
16Eu começo uma letra e encon
tro o Aldir Blanc
14Me
encanto com um conto do
Rubem Fonseca
10E canto uma
do Roupa Nova
12Enquanto num canto Je
sus me observa
9Com cara de
quem desaprova
10Eu acho que eu
sou comunista
9Pois sempre chu
tei de canhota
15Encontrei o Maradona gritan
do "Argentina!"
11Eu acho que ele
é patriota
[Ponte: Gabriel, o Pensador]
10Sou patriota, sou comunista?
13Ou só
mais um morto vivendo no in
ferno
10Só
mais um sonho morrendo no céu
11Mais uma nota
no bolso do terno
10Sou comunista, sou patri
ota?
12Sou um cacique atacado na
oca
12Sou uma cri
ança pedindo co
mida
13Sou uma fo
ca aplaudindo uma
orca
14Sou um cien
tista pedindo uma es
mola
12Sou um quilombola virando pi
ada
12Sou uma
vida que nem vale um
dólar
14Sou
uma preguiça assistindo à quei
mada
13Sou só mais um dos milhões de
indivíduos
12Tão
divididos na morte e na
vida
11Somos devotos dos santos ban
didos
11Briga de votos parece tor
cida
11Gritos de mito e de geno
cida
11Al
moço grátis com mer
da no prato
11Toda
verdade será distorcida
11To
do poder pro Capitão do
mato
[Refrão: Udi Fagundes]
5Quando
eu morrer
8Não
quero choro nem vela
10Quero uma
fita amarela
9Gravada com o no
me dela
[Verso 2: Gabriel, o Pensador]
11Tá ficando estranho es
se sonho
11Mais um amigo chegando
risonho
14Eduardo Galvão, seu olhar
ainda brilha
10Mandando um re
cado pra filha:
13"Querida, a vida é pra
ser bem vivida
11Não é uma cor
ri
da pro pódio"
10Amigo, ela
sabe, eu também
17E
por isso também
so
breponho o amor ao ódio
11E sempre que posso a
inda sonho
11E
tento inspirar tolerância
12Se eu pude aprender com
os meus erros
11Não quero enterrar
a esperança
11Em que em tempos de tan
tos enterros
20O homem ainda enxer
gue a aberra
ção da arrogância
27E agarre
essa chance de achar uma mudança de rumo, ati
tude e con
duta
16Mas fica difícil encontrarmos caminhos mais
justos
12Se todos nós so
mos tão filhos da
puta
15Fa
zendo de tudo pra levar vantagem em
tudo
9Achando normal o ab
surdo
13Pa
gando de lou
co, de cego e de
surdo
8Apenas quando nos convém
6Estamos do
entes
12O vere
ador e a mãe
do menino
38O gover
nador e o ministro assassino que mata inocente no morro Ou dispensa a vacina, de
onde eles
vêm?
10Vi
rou pesadelo esse
sonho
14Olhando pra gente
eu até me enver
gonho
13E
eu acho que eu sou um cidadão
de bem
13Por isso
me exponho e me cobro
também
14Se eu pude aprender pela voz dos poetas
10Não posso acei
tar a censura
14Se os meus professores abri
ram minha mente
14A cura tá na e
ducação e na cultura
11Já tá
uma tortu
ra esse sonho
15E falando em cultura olha quem apare
ce
11Trazendo ironi
a e coragem
17Me arranca um sorriso e
alivia o estresse
14No
sonho ele vem com
milhares de víti
mas
5500
mil mortos ou mais
23A
cordo assustado
e o sorriso do Paulo Gustavo
na dor se desfaz
10Só sinto
o meu corpo gelado
17E do lado da cama uma frase di
zendo "Aqui jaz"
23Esfrego
os meus olhos e vejo que sou um escravo
amarrado num
tronco
15E quan
do o chicote arreben
ta minhas costas
12Me sinto impotente, mas olho pra
trás
26A lágrima
lava o meu rosto, e eu já consciente le
vanto pra sonhar de
novo
17E quebro
as correntes
quando reconheço o meu
rosto
8Na cara do meu ca
pataz
[Refrão: Udi Fagundes]
5Quando
eu morrer
8Não
quero choro nem vela
10Quero uma
fita amarela
9Gravada com o no
me dela