513Eu nasci em 1931, no decurso da leitu ra silenciosa de um po ema. Só havia te cidosespa lhadospelo chão dacasa, as crenças ingénuas de mi nhamãe. Estavam igualmen te presentes as pá ginas que os leito res have riam de tocar (como a uma pauta de música), apenas com o instrumento da sua voz. Eu fui profundamente desejada . Profundamente mal desejada e com amor. — A voz está sozinha — disse minha mãe, ainda eu estava no seu ventre, a ler-me poesia. — Não por muito tem po- responderam àquela que me i niciava na língua. E eu nasci na sequência de um ritmo. Eu nasci para a companhar a voz, fazê -la percorrer um caminho . De um lado a outro do percurso, não sei o que e xiste, o caminho cami nha, eu deslumbro-me quando o tempo se suspende, e me permite parar a con templar o espaço sem tempo . Se vim para acompanhar a voz, irei procurá-la em qualquer lu gar que fale, montanha , campo raso, praça de cidade, prega do céu, conhecer o Drama-Poesi a desta arte. Sentir como bate, num latido, na minha mão fechada. Como ao entarde cer, solta, tantas vezes, um grito súbito: – Poema, que me vens acompa nhar, por que me abandonaste? – Como me pede que não oiça, nem veja, mas me deixe absorver , me deixe evoluir para pobre e me torne, a seu lado, uma espécie de po ema sem-eu. Em silêncio e cega, deixo que me dispa da cla ridade penetrante, da cla ridade no va, da cla ridade sem falha , da claridade den sa, da cla ridade pen sada, me tor ne um fragmen to completo e sem resto para que passem a clo rofila e a som bra da árvore